Morreu o Professor José Manuel Tengarrinha

Podíamos aqui evocar o homem político e cívico que esteve preso inúmeras vezes durante a ditadura, que estava preso no dia 25 de Abril de 1974. Podíamos lembrar a vida académica de José Manuel Tengarrinha, iniciada na década de 1950, mas só retomada depois do 25 de Abril, tendo-se doutorado em 1993 pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde foi catedrático e se jubilou.

Mas, o que aqui nos cumpre saudar é o homem jornalista e o homem historiador, em particular o historiador do jornalismo e da imprensa periódica portuguesa. Alguém que se recusou a alinhar com aqueles que consideravam a história da imprensa algo menor e sem relevância científica, estudando-a, pelo contrário, “como um dos aspectos – certamente um dos mais vivos e expressivos – da história da nossa cultura”. Palavras de José Manuel Tengarrinha na sua incontornável História da Imprensa periódica portuguesa, publicada pela primeira vez em 1965.

Escrevem estas linhas três doutorandos na área da história dos media que, este ano, apoiados por dois centros de investigação e por vários professores e investigadores de renome, estão a organizar um congresso que pretende, modestamente, iluminar retrospectivamente o percurso dos media em Portugal do Estado Novo à década de 1980, e convoque esse percurso para um diálogo com a actualidade.
Este tipo de iniciativas, que nascem da vontade, da paixão e da crença de que é possível fazer da história dos media uma área mais robusta, mais visível e cada vez mais estruturante no que ao pensamento sobre os media contemporâneos diz respeito, não seria possível se para trás não houvesse um longo e pioneiro percurso andado. Se não houvesse quem tivesse desbravado uma área, e a ela se tivesse lançado quando os pilares eram poucos ou nenhuns, e o trabalho era matéria solitária, à margem de redes de investigação e de apoios que, apesar de todas as fragilidades que possam subsistir, permitem hoje estabelecer pontes, maturar discussões, elaborar projectos em conjunto, afirmar-se parte de um campo científico.

Não fomos alunos do Professor José Manuel Tengarrinha. Trocámos com ele, nos sítios do costume – congressos, conferências –, algumas ideias. Mas, sobretudo, lemo-lo, citámo-lo, continuaremos a ler, continuaremos a citar.

Sem o labor pioneiro do Professor José Manuel Tengarrinha, provavelmente este Congresso, que tanto nos enche de entusiasmo, não existiria. Sem mestres, directos ou indirectos, não há discípulos. Sem passado, o presente ou não existe, ou não se explica, ou não se ilumina para o que há-de vir. E estas coisas, Professor José Tengarrinha, assinalam-se, saúdam-se, e agradecem-se. Comovidamente.

Cláudia Henriques
Pedro Marques Gomes
Sílvia Torres

Membros da Comissão Organizadora do Congresso “Os media no Portugal Contemporâneo: da ditadura à democracia”

2018-06-30T15:28:36+00:00Junho 30th, 2018|Categories: ICNOVANotícias|