Chamada para contribuições | Revista INTERACT#31 – Fragmento

Organização: Eduardo Jordão (FLUL), Henrique Fernandes (NOVA FCSH) e João Pereira de Matos (NOVA FCSH /ICNOVA)

“A minha alma partiu-se como um vaso vazio/…/Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso” (Álvaro de Campos).

A questão do fragmento enquanto forma filosófica acompanha, desde os inícios do Romantismo Alemão, o pensamento da modernidade sobre si mesma. Seja nos registos reflexivos da ironia e da sagacidade que trazem à frente a disposição moderna (Schlegel), seja na demonstração das limitações de um sistema filosófico totalizante que permita aceder à realidade da natureza (Novalis). O fragmento orienta, desta forma, uma interpelação do intemporal problema do todo e da parte, permitindo problematizar, como prática, as suas (im)possibilidades de conciliação.

O fragmento, esse finito aberto a potencialidades infinitas, estabelece-se em miríades de modos de produção como uma semente que poderá fazer florescer novas dimensões da noção de razão. É precisamente como modo de produção que o fragmento agrupa inúmeras (contra)correntes da modernidade, desde a literatura (Gysin) ao ensaio filosófico (Benjamin, Bataille, Blanchot), passando pelas artes visuais (Dada, Cubismo, Surrealismo), a música (Cage) e mesmo o cinema. Simultaneamente, no campo estético da chamada pós-modernidade, a reunião de fragmentos numa manta de retalhos, nomeadamente na colagem ou na pintura (David Salle), ou a exploração de descontinuidades, bem exemplificada na arquitectura (Venturi, Stirling), são motifs recorrentes que se apresentam como expressão de um campo de confronto de multiplicidades com diferenças irredutíveis à totalidade harmoniosa idealizada pelo modernismo universalista (Lyotard).

A interseccionalidade relativa a diferentes sistemas de pensamento permite que o campo exploratório do fragmento faça explodir uma constelação dos nossos tempos, uma geometria experimental que nos parece lançar, talvez mais que nunca, para uma iniciativa política que resista, vectorializando-se, à total permeabilização dos espaços de controlo (Deleuze). Neste número (#31) da Interact buscamos, exatamente, vincar este caráter transformativo da questão do fragmento, abrindo portas a discussões e práticas centradas nas singulares propriedades modernas deste tema, como: o intervalo; a interrupção; o inacabado; o descontínuo; a abertura; a distância; a ruína; o indeterminado; a relação; o infinito. Encontramos aqui, porventura, um útil ponto de partida para explorar os abismos da sensibilidade,  encaminhando-nos para uma estética em-pedaços que aponte para a experiência da realidade material (Buck-Morss).

Apelamos à contribuição de investigadores, artistas e ensaístas com propostas que podem assumir formato de texto, registos fotográficos, vídeos (até ao limite de 10 minutos) ou outras formas de exploração dos novos media, respeitando a organização em secções descrita abaixo e sem esquecer que, por ser uma revista nativamente online, as peças devem ser mais curtas, mais ensaísticas, se não mesmo mais experimentais. Há todo o interesse em que seja dado bom uso às capacidades da própria World Wide Web, sendo de incentivar a existência de links, de imagens, de som, de interatividade.

A submissão da proposta deve incluir: título, resumo com 200 a 500 palavras e indicação da secção em que se enquadra, devendo ser feita até 15 de Julho de 2019 para o e-mail dos coordenadores do número, e, se aceite para publicação, a respetiva peça, em formato editável, deverá ser entregue na sua versão definitiva até 1 de Setembro de 2019.

Cabe à redação a palavra final relativamente à publicação ou rejeição das peças em causa, quer motivada pela qualidade quer pela eventual não adequação ao tema.

Emails: jordao_776@hotmail.com; Henriquemf9@gmail.com; matos.pereira92@gmail.com

SECÇÕES

ENSAIO: O ensaio é uma secção-chave do projeto da Interact, que visa contribuir para um fortalecimento da presença do pensamento (em particular do pensamento português) nas redes de informação. Os textos para esta secção devem ter entre 4 a 5 páginas (10000 a 12500 caracteres), com uma utilização reduzida ou moderada de notas de rodapé e itálicos. Desaconselham-se também: bolds, cabeçalhos e diferenciamento de fontes por tamanhos de letra.

INTERFACES: É objetivo desta secção afrontar duas lacunas importantes da atividade contemporânea da crítica no espaço da cultura portuguesa: a presença muito insuficiente da crítica cultural especializada na Internet, aí se incluindo o comentário e a recensão, e a falta de atenção da crítica a temas e objetos provenientes da cibercultura. Têm também aqui lugar artigos de caráter mais curto e mais experimental. Os textos para esta secção devem, também, ter entre 4 a 5 páginas (10000 a 12500 caracteres), privilegiando-se o uso de elementos multimedia e ligações, e desaconselhando-se o recurso a notas de rodapé, bolds, cabeçalhos, diferenciamento de fontes por tamanhos de letra e itálicos.

LABORATÓRIO: Esta secção, concebida como mostra de trabalhos artísticos, é inteiramente livre no que respeita aos meios de expressão a utilizar (escrita, grafismo, vídeo, imagem digital, som, …), aos temas e aos géneros, incentivando-se a experimentação das características próprias das tecnologias digitais. As propostas aqui apresentadas são da inteira responsabilidade dos respetivos autores, embora a sua realização e implementação online possa resultar do trabalho conjunto com a equipa da Interact.

ENTREVISTA: A presença da cultura na Internet ao longo dos últimos anos tem mostrado que a entrevista é um dos géneros mais bem sucedidos na divulgação e no debate de ideias e na expressão do estilo próprio que faz de alguém um autor. Noutros meios, a entrevista é frequentemente uma paródia de si própria pela escrita, uma exibição menor de uma oralidade de improviso (como na rádio ou na televisão) ou um género adulterado pelo rewriting jornalístico. A natureza dos instrumentos de comunicação próprios do online oferece hoje a possibilidade de praticar a entrevista sob formas diversas e extremamente flexíveis, mesmo à distância, permitindo contribuir para a divulgação, junto de um público mais alargado, de autores de qualidade nas áreas contemporâneas do pensamento, da cultura e da arte.

2019-06-11T11:05:56+00:00Junho 11th, 2019|Categories: ICNOVAChamadas|