António Figueiredo Marques participou na II Conferência EASTAP

Doutorando do ICNOVA António Figueiredo Marques apresentou em coautoria a comunicação Da memória ou do gesto performativo: carta-performance na II Conferência EASTAP (Associação Europeia para o Estudo do Teatro e da Performance), que decorreu na Escola de Artes e Humanidades da Universidade de Lisboa e no Teatro Nacional D. Maria II nos dias 23, 24 e 25 de setembro de 2019. O tema principal deste ano foi “Shared Memory(ies): creation, research and politics in the European contemporary stage”.

Resumo:

A nossa carta imaginada poderia começar assim “Querida Mónica (António, Bárbara, Aníbal, qwert, …), estendo a minha mão para ti …” e prolongo-me no alcance, os dedos que pousam no ombro, o avião de papel que atiro, a profundidade da visão. O meu desejo, quer dizer, a minha afecção, levando o corpo–palavra arrancado/a como irrupção do tempo.
E, em seguida, caro António, em seguida, invertemos o fluxo.
Cada vez que leio e me afecto pela carta, herdo um novo e eterno presente, abro um outro tempo, herdo a linha temporal e faço-a esfera afetiva. O espaço que não foi o mesmo concentra-se num ponto.
Herdo e lego todas as cartas [Três Marias (Barreno, Horta, Costa 2010), Artaud-Génica (Artaud 1976), Wilde-Bosie (Wilde 2003), a última gravação de Krapp, Beuys (1977), satrac, …], o gesto performativo da carta assinala não só o corpo disciplinado, como também constrói relações alternativas, articulando modos de mover mundo e modos de (des)conhecer mundo.
Porém, Mónica, embora um registo fixo, também a carta está sujeita às alterações da mutabilidade do tempo. Talvez, exactamente essa fixação a faça alterar mais (sempre que eu re-leio a carta) porque está menos à mercê da memória. Este gesto afirma o futuro do passado (Schneider, 2011).
A carta-corpo cita, perde peles, regenera unhas. A carta vai para o futuro. A nossa relação epistolar (romance ou inconferência – Cummings 1953) ainda não começou.
A correspondência arte – academia ainda não começou? Não me oponho, António, mas não vamos fazer um monumento.
Não, não vamos, não queremos mortos.
Um beijo imenso

Abstract

Our imagined letter could start like “Dear Mónica (António, Bárbara, Aníbal, qwert, …), I stretch my hand out to you …” and I extend myself towards the reach, fingers lay down on the shoulder, the paper plane thrown, the depth of vision. My desire, meaning, my affection, carrying the body–word torn out as irruption of time.
And, afterwards, dear António, afterwards, we reverse the flux.
Every time I read and become affected by the letter I inherit a new and eternal present, I open another time, I inherit the time line and make it an affection sphere. The space, not the same, focuses in a single point.
I inherit and bequeath all letters [Three Marias (Barreno, Horta, Costa 2010), Artaud-Genica (Artaud 1976), Wilde-Bosie (Wilde 2003), Krapp’s last tape, Beuys (1977), serttel, …), the letter’s performative gesture signals not only the disciplined body, but also builds unconventional affairs articulating ways of mobilising world and ways of (un)knowing world.
Although a fixed record, Mónica, the letter is also subject to changes of time mutability. Perhaps, exactly that fixed record will make it more changeable (every time I re-read the letter) because it is less vulnerable to memory. This gesture states the future of the past (Schneider, 2011).
The letter-body quotes, sheds skins, regenerates fingernails. The letter goes to the future. Our epistolary (novel or nonlecture – Cummings 1953) relation has not started yet.
Has the correspondence art – academy not started yet? I don’t oppose, António, but we shall not make a monument.
No, we shall not, we don’t want the dead.
Immense love

Com/ With

Artaud, Antonin. Textos 1923-1946. Ediciones Caldén 13. Buenos Aires: 1976.
Barreno, Maria Isabel; Maria Teresa Horta; Maria Velho da Costa. Novas Cartas Portuguesas, Edição anotada, Org. Amaral, Ana Luísa. Lisboa: D. Quixote: 2010.
Beuys, Joseph. Letter from London. Litograph, 1977.
Cummings, E. E. i: six nonlectures. Cambridge: Harvard University Press: 1953.
Schneider, Rebecca. Performing Remains: Art and War in Times of Theatrical Reenactment. New York: Routledge: 2011.
Wilde, Oscar, De Profundis, Lisboa: Relógio d’Água: 2003.

Bio

Mónica Calle
Em 1992, com Virgem Doida inicia o projecto Casa Conveniente. Trabalha a partir de autores como Dagerman, Strinberg, Beckett, Chekhov, entre outros, recebendo inúmeros prémios. Em 2013 sai do Cais do Sodré para a zona J em Chelas criando um novo espaço teatral em Lisboa e um regresso à ideia fundadora: trabalhar a partir da margem. Desde 2015, desenvolve o projecto Ensaio para uma Cartografia (considerado melhor espectáculo pelo jornal Público em 2017). Em 2017 recebe a Distinção Maria Isabel Barreno – Mulheres Criadoras de Cultura, pelo Governo de Portugal.

António Figueiredo Marques
Investigador-performer do ICNOVA (Performance e Cognição, Laboratório de Experimentação Cénica), CIC.DIGITAL polo FCSH/ICNOVA. Doutorando em Ciências da Comunicação – Comunicação e Artes com orientação do Professor Doutor Paulo Filipe Monteiro na NOVA FCSH. Bolseiro FCT com o projecto intitulado Dramaturgias não narrativas: e quando um espectáculo não conta uma história. Desenvolve uma tipologia de dramaturgias não narrativas e o conceito vitória do menor. Alguns tópicos de trabalho: performance do quotidiano e estética; narrativa e performance; dramaturgia da linguagem; dramaturgia intermedial; inter-relações entre teoria e práticas performativas.

2019-10-09T16:40:50+00:00