António Fernando Cascais no V Congresso sobre Culturas (UBI)

Docente do DCC da NOVA FCSH e investigador do ICNOVA, António Fernando Cascais apresentou no passado dia 7 uma conferência na UBI – no âmbito do Congresso Internacional “Que cultura(s) para o século XXI?” – subordinada ao tema “Políticas da história, políticas da memória”.

Resumo

Perdidas que estão as ilusões acerca do estatuto que a modernidade atribuiu ao intelectual como consciência esclarecida do príncipe e do seu papel como autoridade cognitiva e reserva moral publicamente reconhecidas, nomeadamente na sequência do compromisso de grandes figuras do pensamento europeu e das instituições académicas com os totalitarismos políticos e todos os fenómenos retrospetivamente avaliados como equívocos científicos e erros históricos, o que atualmente está em causa é o seu lugar de fala enquanto sujeito-suposto-saber, doravante sujeito à caução de reconhecimento crítico e denúncia dos anteriores posicionamentos cognitivos e políticos, de revisão das respetivas consequências nefastas e de reparação dos males assim infligidos às vítimas delas. Esta atitude materializa-se num projeto global de reconstrução da história falsificada ou negada e de resgate da memória censurada ou recalcada que incide particularmente no(s) arquivo(s) que as sustentaram enquanto sistemas de seleção e filtragem cuja organização é portadora de constringentes instruções de leitura da própria informação que colige, armazena, ordena e classifica, condicionando assim de maneira determinante os usos que dele se possam fazer. Privilegia-se deste ponto de vista um domínio particular no qual as tensões intrínsecas ao arquivo atingem o seu ponto de saturação: os arquivos de algum modo portadores de um dolo constitutivo que foi infligido a grupos sociais inteiros ou a pessoas individuais, arquivos que originariamente constituíam o registo formal do dolo e que, por isso, são eles mesmos seu instrumento, permanecendo como prova documental da perseguição, da exclusão, da abjeção, da injúria. Contam-se entre eles os espólios, bases de dados, bibliotecas e museus judiciais, policiais, médicos e psiquiátricos, antropológicos, e semelhantes, respeitantes a grupos ou pessoas sobre as quais foi exercido um poder coercivo historicamente questionado (escravos, dissidentes e perseguidos políticos, povos colonizados, homossexuais e outros homens e mulheres tidos por desviantes, etnias alvo de genocídio e vítimas históricas, entre os quais as vítimas do Holocausto, etc.). Objeto, tanto de reivindicação de memória histórica do dolo por todos quantos se reclamam suas vítimas sobrevivas ou herdeiros das suas consequências longínquas, como de contestação revisionista e negacionista, eles estão no centro de uma problematização dos seus usos que é tão epistemológica quanto política e que assenta e se desenvolve segundo três linhas de interrogação: quem pode legitimamente reclamar para si a herança das vítimas? a quem imputar o dever de retificação reparadora? que estatuto de procuração pode legitimamente assumir o intelectual? Todas convergem para o questionamento do estatuto de autoridade e legitimidade do intelectual académico enquanto formulador e definidor de cada uma delas.

PALAVRAS-CHAVE: Política; história; memória; resgate; reparação.

NOTA BIOGRÁFICA de António Fernando Cascais

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Autor de Mediações da Ciência. Da Compreensão Pública da Ciência à Mediação dos Saberes – Um Reader (ICNOVA, 2019). Organizou os livros: Olhares sobre a Cultura Visual da Medicina em Portugal (Unyleya, 2014), Indisciplinar a teoria (Fenda, 2004), A SIDA por um fio (Vega, 1997), Hans Jonas, Técnica, medicina e ética (Vega, 1994) e, em colaboração, Cinema e Cultura Queer. Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer (Lisboa, 2014), Hospital Miguel Bombarda 1968 – Fotografias de José Fontes (Documenta, 2016), Dicionário Crítico de Arte, Imagem, Linguagem e Cultura (IGESPAR, 2010), Lei, Segurança, Disciplina. Trinta anos depois de Vigiar e punir de Michel Foucault (CFCUL, 2009), Michel Foucault, O que é um autor? (Vega, 1992) e os nos 38 – “Mediação dos Saberes” (2007), 19 – “Michel Foucault. Uma Analítica da Experiência” (1994) e 33 – “Corpo, Técnica, Subjectividades” (2004) da Revista de Comunicação e Linguagens. Investigador responsável dos Projectos FCT História da Cultura Visual da Medicina em Portugal e Modelos e Práticas de Comunicação da Ciência em Portugal. Tem publicações nas áreas da Mediação dos Saberes, da Bioética, da História da Psiquiatria, da Cultura Visual da Medicina, dos estudos foucauldianos e dos estudos Queer e de Género. afcascais1@gmail.com

2019-11-09T16:09:56+00:00