Chamada para contribuições: #35 INTERACT Set/Dez 2021

Tema: Objetos encontrados como prática de pesquisa
Até 31 de maio de 2021 – http://interact.com.pt/
Editoras: Ana Gandum e Maura Grimaldi 

Objetos encontrados como prática de pesquisa

A vigente proposta editorial para a revista INTERACT – Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia, a ser publicada no segundo semestre de 2021, tem como foco de interesse o tema “Objetos encontrados como prática de pesquisa”, contemplando e dando prioridade ao campo artístico, mas igualmente convocando outras áreas do conhecimento científico na área das humanidades. 

Num artigo publicado em dezembro de 2020 na revista científica Nature, os investigadores do Instituto Weizman de Ciência em Israel divulgaram dados que apontam para a superação da massa antropogénica – produzida pela humanidade – em relação à biomassa viva – referente a todos os seres vivos – na Terra. Segundo os autores, “Em média, para cada pessoa no globo, é produzida semanalmente uma massa antropogénica superior ao seu peso corporal” [Tradução nossa]. O estudo tem uma margem de erro de aproximadamente seis anos para mais ou para menos, tendo apenas sido considerados objetos produzidos que ainda não foram descartados, ou seja, que ainda não são entendidos como lixo. É perante esta constatação que os autores alertam para o ano de 2020 como um momento de mudança radical na superfície terrestre, oferecendo uma análise quantitativa e simbólica da relação dos elementos produzidos pela humanidade com as entidades vivas na época do Antropoceno.

Parte expressiva dos dicionários da língua portuguesa definem “objeto” como um nome masculino que designa genericamente – portanto sem incluir áreas particulares como a gramática, ótica, direito, psicanálise e filosofia – “tudo o que é exterior ao espírito; coisa; assunto; matéria; causa; motivo (…)” (Priberam online consulta 18.02.2021), “1. qualquer coisa material, 2. Coisa para a qual converge uma ação, emoção ou pensamento (objeto de busca/de desejo/de divergência), 3. Mercadoria, bem de consumo.” (Aulete online consulta 18.02.2021). O dicionário Cambridge da língua inglesa define a palavra “object” como: “a thing that you can see or touch but that is not usually a living animal, plant, or person” (uma coisa que é possível ver ou tocar mas usualmente não é um animal vivo, planta ou pessoa). Na mesma linha, o dicionário da língua francesa Larousse também contempla uma definição de objeto a partir da ideia de produção humana: “Chose solide considérée comme un tout, fabriquée par l’homme et destinée à un certain usage (…).” (Coisa sólida considerada como um todo, fabricada pelo homem e destinada a um determinado uso).

Ressalta-se aqui um caráter ambíguo entre uma abordagem mais ampla à materialidade das coisas e a esfera da manufatura e produção humana como intrínseca à objectualidade. Esse caráter ambíguo tem ecos ao nível da produção de pensamento, pois a distinção binária entre pessoas e coisas, sujeitos e objetos tem sido repensada nos últimos anos por disciplinas como a antropologia, sugerindo agência dos supostos objetos e suas materialidades nas dinâmicas do socius e questionando a própria terminologia. Igualmente, a influência da cibernética, da inteligência artificial, e o esbatimento da distinção entre máquina e organismo vivo, entre sujeitos e imagens/objetos, entre realidade e virtualidade que os meios digitais potenciaram nos últimos anos, reforçam a diluição de uma fronteira categórica entre sujeito e objeto. 

Um objeto achado é necessariamente um objeto perdido. E nesse processo de perda, muitas vezes o seu nome próprio e o seu proprietário de origem são esvaziados, criando uma rutura na vida institucional do objeto. 

As potencialidades desse “vazio” foram claramente pressentidas pelos movimentos Dada e Surrealista no início do século XX e práticas conceptuais da década de 1970, as quais, navegando pelas mais distintas práticas de apropriação, do ready-made ao found footage, privilegiam o olhar e sentidos prestados ao objet trouvé. Na cena contemporânea, a reflexão sobre o conceito de arquivo e o redimensionamento das coisas e imagens encontradas, adquire expressão em variados contextos de expressão artística, institucionais ou não, então, apontando para uma prática gestual, para formas de ir construindo quotidianos. Em quase todas essas práticas, mobiliza-se a imagem técnica e seu olhar para fazer emergir sentidos poéticos e inusitados nas coisas mais banais, ao mesmo tempo que se profana o seu valor de uso de mercadoria, e o seu destino restrito a objeto de consumo.

Considerando estas dimensões assim como o contexto atual de simultânea ameaça de escassez de recursos e exponencial produção industrial de produtos que rapidamente se tornam lixo, surgiu-nos um conjunto de questões a partir das quais pensámos a presente chamada para contribuições da Interact #35. Como as práticas artísticas e culturais pensam a produção? Quais os questionamentos e sentidos de resistência que emergem de produções que mobilizam imagens e “tralhas” encontradas? O que faz o ato apropriativo ainda ser prática e método para muitos autores? Quais as tensões entre procurar objetos ou ser encontrado por eles? Faz sentido dizer que o gesto artístico é hoje menos um gesto de produção de obras, e mais uma sensibilidade, atenção e pesquisa de coisas que nos interpelam? Que novas perspetivas, novas coisas, derivam desses objetos encontrados? 

 Convocamos, assim, a participação de investigadores, artistas e ensaístas com produções práticas e teóricas nas diferentes secções da revista — Ensaio, Interfaces, Laboratório ou Entrevista.

As propostas podem assumir o formato de:

– artigo científico;
– entrevista;
– ensaio crítico em texto;
– ensaio artístico de imagens, texto, som ou vídeo e/ou;
– outros dispositivos imagéticos e discursivos que se adequem ao modelo desta revista nativamente online.

Incentiva-se o uso das capacidades de conectividade da própria rede através de hiperligações ou outras formas de interatividade.

A submissão de cada proposta deve incluir: 

•            Título;
•            Resumo entre 150 e 400 palavras;
•            Palavras-chaves (até cinco);
•            Nota(s) biográfica(s) do(s) autor(es);
•            Indicação do formato.  

As submissões devem ser realizadas até ao dia 31 de maio de 2021 para o e-mail das editoras do número: interact035@gmail.com. E, se aceites para publicação, deverá ser entregue na sua versão definitiva até 01 de agosto de 2021.

Cabe às editoras a decisão relativamente à publicação ou rejeição das propostas submetidas, tendo em consideração a articulação da dimensão experimental da revista com o tema proposto.

Calendário:

•            Submissão de propostas até 31 de maio de 2021
•            Divulgação dos resultados até dia 30 de junho de 2021.
•            Entrega da versão definitiva até dia 01 de agosto de 2021.
•           As submissões e propostas finais devem ser enviadas para o email:  interact035@gmail.com

2021-04-12T11:18:22+00:00