Investigadores do ICNOVA participam no Congresso “Imagens interditas. Cinema e Literatura no espaço Ibérico – séculos XX e XXI”

Vários investigadores do ICNOVA participam hoje no Congresso online “Imagens interditas. Cinema e Literatura no espaço Ibérico – séculos XX e XXI”, dinamizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em conjunto com o CEC – Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o IHA – Instituto de História da Arte e o CHAM – Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa.
Com comunicações de subtemáticas diversas, o ICNOVA faz-se representar por Cláudia Madeira, Carla Baptista, Jacinto Godinho e Ana Catarina Caldeira.

Painel 6 / Sala A CINEMA, CENSURA E ESTADO NOVO
Ernesto de Melo e Castro: o experimentalismo visual e performático contra a censura do Estado Novo em Portugal
Cláudia Madeira (ICNOVA/ FCSH-UNL)

Ernesto de Melo e Castro (1932), possui um percurso artístico de grande singularidade e experimentalismo. Desde os anos sessenta o autor tem sido conhecido sobretudo como “Homem de palavras”, tendo escrito diversos géneros de prosa e poesia, bem como livros, ensaios, críticas e ainda mail art, trocando correspondência com artistas de todo o mundo. Menos conhecida é a sua condição de “Homem de Teatro”. Escreveu peças de teatro, que pelas vicissitudes da censura presentes no contexto português nos anos cinquenta, durante o Estado Novo, e dos seus efeitos de auto-censura no artista, só foram publicadas em 2006 pela SPA sob o título Teatro de Um Homem (L)Ido – Metaficção Crítica e Teatral. A censura ao seu trabalho de foro teatral levou a que E. Melo e Castro desviasse o seu percurso para campos artísticos menos expostos à vigilância da censura, como a poesia visual e experimental, com a sua deriva para a performance/happening, distanciando-se assim, desse campo ao ponto da publicação acima citada em 2006 surgir sob a forma de um pseudónimo. Durante os anos 50 a 70 desenvolveu diversos poemas visuais, happenings e performances onde esteve presente uma forte crítica ao silenciamento da liberdade de expressão, alguns dos quais, vieram a ter formato vídeo ou mesmo de vídeo-performance como “Música Negativa” (1965), num registo em filme de Ana Hatherly, de 1977. Nesta comunicação procuraremos problematizar as diferentes relações e tensões entre géneros artísticos na obra de Ernesto de Melo e Castro, que se tornou nesse período mais visual e mais perfomática, como uma estratégia contra a censura.

Painel 9 / Sala A 16.30 18.00  CENSURA E TRANSGRESSÃO APÓS A DEMOCRACIA

Que farei eu com esta Espada, de João César Monteiro, e a RTP no tempo do PREC – uma história de censura e transgressão
Carla Baptista e Jacinto Godinho (NOVA FCSH/ICNOVA)

Que farei eu com esta Espada, de João César Monteiro, e a RTP no tempo do PREC – uma história de censura e transgressão Esta comunicação analisa o filme documental do realizador João César Monteiro “Que Farei eu com esta Espada”, no contexto da televisão revolucionária do PREC. Estreado como objeto televisivo em 1975, encomendado pela direção do recém criado Departamento de Programas Político-Sociais (DPPS), com a intenção de retratar o espírito da cultura popular revolucionária de que a RTP se fez instrumento, criador e propagador no âmbito das suas várias administrações comandadas por militares do MFA, o filme acabou por surpreender até os responsáveis pelo DPPS. Embora tenha sido já objeto de análise fílmica, são muito poucos conhecidos os contornos e as vicissitudes da sua passagem pela televisão, que sofreu vários cortes e amputações. Algumas das cenas mais transgressoras – como a cena de sexo entre a prostituta e o padre – não foram autorizadas na altura e foram cortadas. É este o foco da nossa comunicação, que procura enquadrar este objeto cinematográfico extraordinário no contexto de nascimento de uma cultura revolucionária que, embora profundamente disruptiva em relação ao legado da cultura popular forjada pela ditadura, era também e ainda marcada por traços de conservadorismo, constrangimentos e submissões que marcaram as opções de programação da RTP durante os anos do PREC.

 

Metáforas literais em “Hero, Captain and Stranger”: tabu, homofobia e censura em torno de uma adaptação cinematográfica de Moby Dick Bruno Marques e Ana Catarina Caldeira (IHA e ICNOVA – FCSH, Universidade Nova de Lisboa)

Juntamente com Nuno Alexandre Ferreira — o seu companheiro na vida e na arte — João Pedro Vale tem assinado trabalhos polémicos que dividem opiniões no panorama artístico português. O auto-exibicionismo despudorado, a iconografia sado-masoquista e as representações de práticas sexuais interditas previamente marginalizadas, estão entre os tópicos que esta dupla tem explorado, sempre com um forte sentido de humor e irrisão. Em 2009, João Pedro Vale adaptou a obra “Moby Dick”, de Herman Melville, no primeiro filme porno gay português apresentado em contexto artístico. A seu respeito, o artista referiu que: “Senti as pessoas incomodadas, não sei se por ser pornografia ou por acharem que a arte e a pornografia deviam estar separadas.” A partir de uma perspectiva queer, “Hero, Captain and Stranger” (2009) narra as aventuras a bordo de um navio baleeiro por um grupo de personagens numa versão pornográfica que segue as categorias sexualizadas definidas por Robert K. Martin no seu livro “Hero, Captain, and Stranger: Male Friendship, Social Critique, and Literary Form in the Sea Novels of Herman Melville”. Depois de uma exibição no Cine Paraíso, um cinema porno de Lisboa, e no Museu Colecção Berardo, mais tarde, uma companhia de seguros cancelou uma exposição desta dupla por alegadamente abordar uma temática homossexual. A partir da celeuma que este episódio gerou no meio artístico e na impressa escrita, a presente comunicação questiona as fronteiras convencionais que separam a arte (e o erotismo) da “pornografia”, a fim de discutir, dentro do paradigma actual das sociedades democráticas, os limites do permissível e da liberdade de expressão em contexto artístico.

 

O evento visa aprofundar a compreensão de problemáticas relacionadas com a censura contemporânea no espaço Ibérico, nas suas mais amplas e diversas dimensões, no que respeita à imagem em movimento e literatura, privilegiando abordagens interdisciplinares e actuais que se integrem nas principais questões científicas internacionais e em metodologias de trabalho inovadoras com resultados relevantes.

A entrada é livre!

Programa e links do Zoom em:
https://congressoimagensinterditas.weebly.com/programapro…

2021-04-13T15:56:59+00:00