Chamada de capítulos para Ebook Ruy Guerra e Ruy Duarte de Carvalho – entre escritas e imaginários (novo prazo)

Editoras: 
Rita Chaves (Universidade de S. Paulo) (rita.chaves@uol.com.br) /
Maria do Carmo Piçarra ICNOVA – FCSH (mcarmopicarra@fcsh.unl.pt)

prazo de submissão de propostas: 31 de agosto, 2021 Fechado

Não apenas o nome aproxima esses dois homens do mundo, que nele chegaram com dez anos de diferença: o primeiro, Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira, nasceu em Lourenço Marques, capital de Moçambique, em 1931. O segundo Ruy Duarte de Carvalho nasceu em Santarém, no Ribatejo português, em 22 de abril de 1941. Em continentes e hemisférios distantes, ambos nasceram portugueses e ambos viveram de modo apaixonado os avanços e recuos do nosso tempo, as pequenas mudanças, as transformações incisivas e as surdas permanências que se sucedem de forma vibrante desde o fim da Segunda Guerra. Figuras incontornáveis da escrita e do cinema em língua portuguesa, Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) e Ruy Guerra (1931-), estão ligados pelo génio, pela paixão por linguagens diversas e pela notável capacidade de associar e ultrapassar geografias.

Guerra nasceu em Moçambique, filhos de pais portugueses e, movido pela rebeldia e pelo desejo de estudar cinema, saiu da cidade colonial no começo da década de 1950.O destino foi Paris, onde cursa o Institut des Hautes Études Cinématrografiques ( IDECH) e realiza o “Quando le soleil dort”, seu primeiro curtametragem. A partir de então, Atenas, Madrid, Havana, Lisboa, e ainda a Ilha de Córsega figuram em seu itinerário, como estações de uma certa permanência, mas é o Rio de Janeiro, para onde veio em 1958, o pouso mais constante. Ali, além da atividade cinematográfica, fulcral em sua vida, ele tem sido ator, letrista de música popular, diretor teatral, escritor e professor de cinema. Entre os anos de 1970 e 1980, a independência de seu país de nascimento o levou para lá e, com base em Maputo, participou vivamente do nascimento do cinema do novo estado nacional. Em meados dos anos de 1980, reinstala-se no Brasil, com direito a moradas provisórias em outros países.

Ruy Duarte de Carvalho nasceu em Portugal, todavia a adolescência vivida no sul de Angola com a família determinou o seu percurso. Depois de cursar a escola de regente agrícola em Santarém, cidade em que nasceu, regressa a então colônia portuguesa e vive em cidades como Uíge e Calulo; no começo dos anos de 1970 desloca-se para os lados do Índico e, por cerca de dois anos, reside em Lourenço Marques, onde trabalha em uma fábrica de cerveja. Antes de voltar a Angola, seguiu para Londres para um curso de realização de cinema e televisão. Como cidadão angolano, também incluiria Paris em seu itinerário de formação: foi lá que fez o seu doutoramento em Antropologia. À capital francesa, juntaria Bordeaux, Coimbra, São Paulo e São Francisco, lugares de atuação profissional e observação do mundo, sempre em alternância com o sexto andar da Maianga, bairro central de Luanda, onde viveu os anos de grande turbulência e reflexão. Depois viria Swarkopmund, mais perto do deserto que se tornou o seu chão.

Na trajetória desses dois homens do mundo, percebe-se a centralidade da imagem e da palavra a inserir-se nos mais variados processos de reflexão sobre espaços que, situados nas margens do mundo, se inscrevem como privilegiados locais de cultura de onde se observam os centros e outras periferias com empenho e arte. Instalando-se em diversos postos de leitura da história colonial e seus efeitos na contemporaneidade, Ruy e Ruy fazem uso de diferentes instrumentos para analisar, de dentro e de fora, as marcas da expansão colonial e as muitas formas de coexistência entre o velho e o novo com que os homens vão produzindo rupturas e promovendo transformações.

Tendo o Brasil como casa há mais de 50 anos, Ruy Guerra, com Glauber Rocha e e Nelson Pereira dos Santos, para citar alguns, projectou o Cinema Novo brasileiro a uma dimensão universal. Entre a África, a América do Sul e a Europa, a sua cartografia tricontinental fez da literatura uma importante companhia para percorrer as veredas do cinema. No primeiro curta, foi ao encontro do italiano Elio Vitorini, mais tarde as incursões na tela seriam partilhadas com Gabriel Garcia Marques, Antônio Calado e Chico Buarque, seu parceiro também em canções e peças teatrais. Em “Quase Memória”, de 2015, o ponto de partida é o romance de mesmo nome de Carlos Heitor Cony. Dividindo com a imagem, a paixão mobilizadora, a palavra se desdobra na escrita de crônicas e de poemas, exercício que confirma o sentido estético de um olhar sempre em movimento.

Viajante por Paisagens efémeras, título do livro que deixou inacabado, Ruy procurou conhecer os pescadores da costa de Luanda e os pastores do Sul, e com Angola sempre no centro das suas investigações, o horizonte tornou-se atlântico: nas derradeiras obras, Desmedida e Terceira Metade, abriu para o Brasil, incluiu as Américas, a África do Sul e toda a África ocidental e austral. A Ilha de Santa Helena chegou a ser visitada em meados de 2010. Na pauta estava a expansão ocidental ainda em curso e os ciclos que não se fechavam por completo. Tendo começado pela poesia, fez ficção, cinema e ensaios de antropologia e ainda aplicou-se no desenho e nas cores em aguarelas. Articulando sempre coerência e precisão, seu pensamento desdobrou-se em linguagens multiplicadas perseguindo as muitas dimensões do conhecimento.

Intelectuais em sentido pleno, ambos nos entregam uma produção que, trilhando verticalmente o território das perguntas, barra-nos o caminho das respostas fáceis.  No trânsito por vários mundos e pelas também várias formas de ver esses mundos, os dois particularizam-se justamente pela capacidade de formular indagações que atraem leitores, espectadores, estudiosos. Nessa alternância de pontos que enxergamos em seu trabalho e em seu percurso, o que se consagra não é a substituição de um lugar pelo outro, mas a ideia de mobilidade como um método de investigação e de explicação de realidades que não se deixam apreender.

Ruy Guerra completa agora 90 anos e Ruy Duarte faria 80 anos. Refletir sobre suas obras e seus trajectos é, sem dúvida, um modo de conhecer o constante movimento de seus mundos. Assim, a idéia desse livro é justamente fermentar o debate acerca dos instrumentos que esses dois viajantes da contemporaneidade oferecem para a apreensão e compreensão dos impasses que nos envolvem.

Os contributos devem abordar, entre outros, os seguintes tópicos:

– Imaginários e poéticas / linguagens (e leituras) multiplicadas;
– Estética, ética e política;- Epistemologia nómada;
– Intermedialidade(s). Atravessamentos espaciais, culturais e linguísticos;
– Diálogos artísticos, transdisciplinares e intergeracionais;
– Representações cinematográficas dos acontecimentos e antropologia das imagens;
– O(s) autor(es) emancipado(s). Descolonização das representações.
– Cinematografia(s) de urgência;
– Cinema e literatura. Diálogos e / ou adaptações;
– Cinema e rituais / narrativas africanas orais;
– Cinema Novo;
– Terceiro Cinema / Internacionalismo cinematográfico.

Aceitamos propostas de capítulos, em português, inglês e francês, até 10 000 palavras (recomendação), incluindo um resumo (máximo 300 palavras) e até cinco palavras-chave, os quais deverão ser enviados, até 30 de Julho, 31 de agosto para os emails das editoras rita.chaves@uol.com.br e mcarmopicarra@fcsh.unl.pt

Todos os capítulos serão sujeitos ao sistema de dupla arbitragem cega.
O livro será publicado em formato de ebook, em acesso aberto, na coleção ICNOVA, no site do ICNOVA.

Regras para manuscritos e normas de referência bibliográfica

Regras podem ser consultadas aqui:

https://www.icnova.fcsh.unl.pt/livros-icnova/

Os textos submetidos devem seguir os padrões de estilo e requisitos bibliográficos específicos das normas da Publication Manual of the American Psychological Association APA 7a edição: https://apastyle.apa.org/style-grammar-guidelines/references/examples
As imagens são colocadas no texto com as respectivas legendas.

 

2021-09-01T13:31:05+00:00