A Terra como Acontecimento I e II de Romy Castro em debate

Romy Castro, investigadora do ICNOVA e artista plástica, mostra os seus mais recentes trabalhos cinematográficos no átrio da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa. Trata-se de duas obras experimentais “A Terra como Acontecimento I” (2012) e “A Terra como Acontecimento II” (2021) que surgem da confluência entre a pintura da artista e o dispositivo cinematográfico e adquirem uma autonomia enquanto reflexão ensaística cinematográfica. O primeiro filme foi produzido no âmbito da Guimarães-Capital Europeia da Cultura e o segundo integrou, em maio, a Conferência Europeia de P&D de Humanidades. Os filmes podem ser vistos nos dias 22, 23 e 24 de novembro entre as 15 e as 19 horas, e os dias 30 de novembro, 2 e 3 de dezembro entre as 14 e as 18 horas. Esta exibição é acompanhada de dois dias de debates, no dia 24 de novembro às 15 horas e no dia 3 de dezembro às 14 horas.

 

Resumos das Conferências do dia 24 de novembro de 2021

Romy Castro – Artista Visual/Investigadora/Curadora. Investigadora integrada de Pós-Doutoramento do ICNOVA. Doutorada em Ciências da Comunicação, com a Especialidade em Comunicação e Artes, pela FCSHUNL. Mestre em Estética e Filosofia da Arte, pela FLUL.  Licenciaturas em Artes-Plásticas/Pintura, pela FCBAM e pela FBA-UL. Desde 2002 realiza trabalho experimental em Cinema/Vídeo.  Investiga e publica nas áreas de filosofia da arte, estética, cinema, filosofia da comunicação e geofilosofia. Integrou a Comissão Científica da Conferência Europeia de Humanidades, durante a Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. Integra a Comissão Científica da Revista “Cinema & Território” da UMA.

Título: “A Terra como Acontecimento I e II”.

Resumo: Numa relação originária com a natureza, o projeto artístico e geofilosófico sobre as matérias da Terra, que corresponde a um projeto transdisciplinar, na promoção da pesquisa, da experimentação, da criação e da inovação artística, enquanto horizonte do pensar e do agir, no momento crítico constituído pelo Antropoceno, pretende intervir e dar visibilidade a outras possibilidades do habitar da Terra. Ele torna-se na forma de expressão criativa que media e articula o passado com o presente, para o comunicar em diferenciadas dimensões para o futuro.

João Borges da Cunha – Arquitecto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. Participou no desenho dos Pavilhões da representação «Portugal à l’honneur» do «Salon du Livre Paris 2000», comissariada por Eduardo Prado Coelho. Prémio Literário Branquinho da Fonseca Expresso/ Gulbenkian. Doutorado em Estudos de Cultura pela Universidade Católica Portuguesa, com tese sobre representações arquitectónicas na novelística modernista. Publicou ensaio em estudos inter-artes, ficção e teatro. Professor de Arquitetura na Universidade Lusófona. Investigador do CICANT.

Título: “do Ordenamento ao Ornamento: folia e foliage nos filmes de Romy Castro”.

Resumo: Para neutralizar o magnetismo epocal em que a modernidade nos deixou, com seu desvario de movimentos pré-pós-anti-sobre-temporais, será de prudência um gesto de regresso. Não só “às coisas mesmas”, como na máxima da fenomenologia de Husserl, mas aos destroços acumulados pelo vendaval do progresso, como nesse Angelus Novus de Klee-Benjamin. O despojo maior dessa epocologia frenética aparece hoje com o nome de Terra. O que os filmes de Romy Castro revelam é que o acontecimento-terra é ainda um simpósio de conceitos renegados em tresleituras várias, e sacrificados no altar, por assim dizer, das mentalidades avançadas. O ornamento é um deles. A folia, outro. Comecemos por aqui.

Cristina Azevedo Tavares – Licenciada em Filosofia pela F.L.U.L. Mestre em História de Arte e PHD em História de Arte Contemporânea pela F.C.S.H. da U.N.L. Membro integrado do Centro de filosofia da Ciência (CFCUL) e colaboradora do Centro de Investigação em Belas-Artes. Professora Associada na FBAUL (Ciências da Arte e do Património) e Vice-Presidente da FBAUL. Atividade diversas nas áreas da história e teorias da arte, crítica da arte e de curadoria.

Título: “A condição da matéria na obra de Romy Castro como lugar central”.

Resumo: Como nos interpelam os dois filmes “A Terra como acontecimento I e II”? Que relacionamento estabelecem com a restante obra de Romy Castro? O que ocorre nesta mudança do suporte da pintura/ instalação para o filme? A resposta vai ao encontro da matéria que sempre constituiu um eixo fundamental na obra de Romy Castro. Este encontro é o tema que convocamos para esta intervenção.

Paulo Alexandre e Castro – Doutorado em filosofia (UMinho), mestre em fenomenologia e hermenêutica (FLUL), licenciado em filosofia (FLUL). Fez um Pós-Doc em Arte Digital (Universidade Fernando Pessoa). Autor de diversas obras (do ensaio à poesia), publica regularmente em revistas internacionais da especialidade. É membro integrado do Instituto de Estudos Filosóficos da Universidade de Coimbra.

Título: “Dialécticas da in-visibilidade nos vídeos de Romy Castro”.

Resumo: Nos vídeos de Romy Castro presente-se, tal como na sua obra pictórica, uma dialéctica entre o domínio da visibilidade e da invisibilidade que não se subsume na mera esquematização de uma síntese. Na verdade, entra aqui em jogo algo de mais substancial e que diz respeito à própria visualidade: o fenómeno da evidência e da doação que só uma onto-fenomenologia da terra como acontecimento pode ajudar a explicitar.

Resumos das Conferências do dia 3 de dezembro de 2021

Romy Castro – Artista Visual/Investigadora/Curadora. Investigadora integrada de Pós-Doutoramento do ICNOVA. Doutorada em Ciências da Comunicação, com a Especialidade em Comunicação e Artes, pela FCSHUNL. Mestre em Estética e Filosofia da Arte, pela FLUL.  Licenciaturas em Artes-Plásticas/Pintura, pela FCBAM e pela FBA-UL. Desde 2002 realiza trabalho experimental em Cinema/Vídeo.  Investiga e publica nas áreas de filosofia da arte, estética, cinema, filosofia da comunicação e geofilosofia. Integrou a Comissão Científica da Conferência Europeia de Humanidades, durante a Presidência portuguesa do Conselho da União Europeia. Integra a Comissão Científica da Revista “Cinema & Território” da UMA.

Título: “A Terra como Acontecimento I e II”.

Resumo: Uma expressão criativa que pretende intervir e dar visibilidade a outras possibilidades da Terra, que a liberte das formas rígidas com que foi apropriada.  Mas visa igualmente um outro propósito mais amplo, chamar a atenção para o lugar do homem na história planetária, porque o momento é decisivo, e chamar a atenção para a autodestruição do seu ambiente. Esta deslocação de perspetiva faz da relação com o Planeta a questão essencial, que a todos envolve. A arte pode intervir e dar visibilidade às tarefas que se impõem a partir da eclosão da presença densa da Terra.

Teresa Mendes Flores – Historiadora da fotografia e do cinema. Trabalha nos campos dos media óticos, da cultura visual e da semiótica. É investigadora no ICNOVA, Universidade Nova de Lisboa, e doutorada em Ciências da Comunicação pela mesma universidade. A sua dissertação explorou as relações entre fotografia e espaço. No ICNOVA coordena o grupo de investigação “Cultura, Mediação e Artes” (desde 2019), co-edita a revista RCL- Revista de Comunicação e Linguagens, e é investigadora principal do projeto Photo Impulse, financiado pela FCT.

Título: “Génese e devir da imagem na obra fílmica de Romy Castro”.

Resumo: Nesta intervenção far-se-á uma leitura muito pessoal dos filmes “A Terra como Acontecimento I e II” da artista plástica portuguesa Romy Castro, convocando alguns conceitos da semiótica e da estética. Nestes filmes, misteriosos e intensos, somos levados a viajar perdidamente através de matérias originárias inorgânicas, mas vivas que sabemos serem pinturas, mas que nesses movimentos da câmara nos transportam para paisagens de uma terra ancestral e originária. Terra no seu sentido literal, com os seus minérios e diferentes terras que constituem a própria obra e é, assim, a matéria de que é feita a imagem. Por isso, terra mineral que se torna imagem – como a fotografia, com que as suas pinturas por vezes se confundem, são sais de prata emulsionados pela luz, minerais, portanto. Terra ainda no sentido simbólico de Gaia, do planeta em que habitamos e que, como macrocosmos, vemos emergir nos planos picados em que vogamos, por vezes deparando-nos com imensas constelações de um céu negro e cintilante formado pelo microcosmos das pirites. Luz e negro, também géneses da imagem e verso e reverso do pensamento, porque estamos diante de imagens pensamento.

José Gomes Pinto – Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Escola de Comunicação, Arquitectura, Artes y Tecnologias da Informação. Integra o Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias. Doutorado em Filosofia e Agregado em Ciências da Comunicação, as suas áreas de interesse são a estética, a teoria da técnica e dos media, a filosofia da comunicação.

Título: “Matérias da natureza, ofício da artista”.

Resumo: A tradição ocidental tendeu a considerar o artifício como um prolongamento da Natureza. Quer isto dizer que o artificial era visto como uma extensão e modificação daquela. O artifício era assim encarado como um epifenómeno do natural e, enquanto fenómeno acessório, devia o seu estatuto ao natural. Esse estatuto, todavia, e em última análise, é determinado pela imitação, a mimese. A natureza é assim originária em relação a toda a criação artificial e, de um modo ou de outro, todo o artificial a ela se deve poder reduzir. Na formulação de Aristóteles diz-se: «a arte imita a natureza». A forma como encaramos o trabalho de Romy Castro enfrenta-se com estas perspetivas, mas quer também ir além delas, querendo dar conta de que natureza, arte e individualidade não têm de estar em mútua exclusão. Trabalham com os elementos da natureza que podem trazer novas formas de as perceber e de as compreender. Será sobre estes problemas que faremos a nossa intervenção.

Catarina Patrício – Artista Visual, investigadora integrada no CICANT e Professora Auxiliar na ECATI. Doutorada em Ciências da Comunicação pela FCSHUNL. De 2015 a 2020 foi bolseira FCT em Pós-Doutoramento no ICNOVA. Mestre em Antropologia dos Movimentos Sociais pela FCSH da Universidade de Lisboa. Formada em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa (FBA-UL: 1998-2003), investiga e publica nas áreas da antropologia do espaço, filosofia da técnica, estética e teoria dos media.

Título: “Paisagem da Terra-Passada / Paisagem da Terra-Futura: reflexões em torno do Materialismo Estético de Romy Castro”.

Resumo: Em A Terra como Acontecimento I e II somos levamos a sobrevoar as matérias da Terra – um travelling shot que dura há aproximadamente 4,5 mil milhões de anos. Substituindo uma ontologia pelo acontecimento, Romy Castro opera uma reconciliação da matéria com a duração, num Materialismo Estético que revela a Terra inteira na sua apetência figural e não apenas como substrato ou valor de fundo. Se a matéria sub-existia na experiência e na memória, é agora a sua estética tornada acontecimento que a faz sobre-existir à força da imprevisibilidade, lançando-se enquanto base material do futuro por vir.

2021-12-06T21:49:40+00:00