[NOVO PRAZO] Chamada para contribuições INTERACT#37 | Individuar a Memória: pensar com Bernard Stiegler

Foi prolongado o prazo da Chamada para contribuições INTERACT#37
Open Call INTERACT #37 (SET-JAN) extended deadline

Até 16 de Maio 30 de Junho de 2022
Organização: Luís Lima e Alexandra Martins

https://revistainteract.pt/

INDIVIDUAR A MEMÓRIA: PENSAR COM BERNARD STIEGLER

Comemorando a vida e a obra do pensador francês Bernard Stiegler, esta proposta pretende não só celebrar o indivíduo – insubmisso, sublevado, activista e comprometido  –, mas também a obra do filósofo, dedicada ao pensamento sobre a técnica e as tecnologias, as suas consequências políticas e ambientais e a sua simbologia, sem esquecer as práticas artísticas, como o cinema, a música ou a arte digital, num contínuo questionamento da individuação psíquica e colectiva, sempre atravessado pela problemática da memória na sociedade contemporânea.

A pertinência de pensar hoje com Bernard Stiegler advém da sua abordagem crítica dos efeitos do capitalismo hiper-industrial (tecnologias incluídas), sempre construtiva, aparelhada por uma visão farmacológica não determinista que permite, mais do que identificar problemáticas, pensar a partir do problema. Esse pharmakon que, na sua etimologia, provém simultaneamente das noções de cura e de veneno e que se revelaria, entre outras, sob a forma da técnica. A partir de uma leitura de Simondon, Stiegler aponta para a desindividuação ou a falência do indivíduo técnico causada pelos processos de hiper-industrialização e de mecanização do trabalho. O indivíduo é ora servente da máquina, ora seu combinador e ainda consumidor dos seus produtos, mas nunca lhe é co-extensivo, sendo o artesão quem perde o seu gesto, a sua força de individuação na matéria, o seu saber-fazer que é, em última análise, um saber-viver. Tal falência reduz a possibilidade de uma transindividuação por via das mnemotecnologias, pois estas configuram, simultaneamente, uma espécie de política da memória externalizada, logo padronizada, ao contrário do que sucedeu, durante o século XX com as mnemotécnicas e outras indústrias da gravação e reprodução técnica, donde a sua especial atenção para o método cinematográfico e musical.

As implicações políticas e estéticas do modelo hiper-industrial testemunham ainda o que o autor designa como miséria simbólica mas apontam sobretudo para uma obsolescência do homem, já que se desindividuou ao ponto de atingir um nível de alienação globalizado, derivado de uma protesificação da memória subjectiva e colectiva. Tal movimento de externalização da memória e de confiscação da experiência sensível ao corpo aparenta hipotecar toda e qualquer possibilidade de partilha comunitária para a gestação de um nós político ou até mesmo de um qualquer saber de facto (saber-fazer, saber-viver e saber-pensar), na medida em que tal saber implicaria sempre um processo de individuação, logo, de produção de memória.

Pretende-se, assim, reunir contribuições que incluam reflexões sobre

  • os processos de individuação técnica e tecnológica, subjectiva e colectiva (Simondon);
  • a técnica e a condição farmacológica (Derrida);
  • a miséria simbólica, estabelecida pelo marketing e pela hiper-industrialização, e o aparecimento de novos populismos;
  • a (des)automatização e as sociedades de controlo (Deleuze);
  • a experiência estética e a possibilidade de constituição política de um nós por vir (Agamben, Rancière, Mondzain);
  • as políticas da memória, tendo em consideração os conceitos de anamnese e hipomnese (Platão, Foucault);
  • as mnemotecnologias e as indústrias cinematográfica, musical e dos novos media (incluindo cripto-arte), entre outras que se considerem pertinentes no âmbito alargado desta chamada.

Convocamos assim à participação nas diferentes secções da revista — Ensaio, Interfaces, Laboratório ou Entrevista — através da submissão de propostas que podem assumir o formato de texto, imagem, som ou vídeo (até ao limite de 10 minutos) ou outros dispositivos imagéticos e discursivos que se adequem ao modelo desta revista nativamente online. Incentiva-se o uso das capacidades de conectividade da própria rede através de hiperligações ou outras formas de interatividade, que aqui deverão assumir-se simultaneamente como temática e expressividade material – privilegiando sempre trabalhos que se articulem directamente com a obra do autor.

A submissão de cada proposta deve incluir: título, resumo entre 150 e 450 palavras, nota biográfica e indicação da secção em que se enquadra. Para a secção “Laboratório” deverá ser enviado igualmente um excerto do trabalho, ou outros materiais que documentem a proposta. As submissões devem ser realizadas até 31 de Maio de 2022 para o e-mail dos editores do número (luisfmlima@gmail.com; alexandrajoaomartins@gmail.com), se aceites para publicação, deverá ser entregue na sua versão definitiva até 31 de Julho de 2022.

Cabe aos editores a decisão relativamente à publicação ou rejeição das propostas submetidas, tendo em consideração a articulação da dimensão experimental da revista com o tema proposto.

Se aceites para publicação, deverá ser entregue na sua versão definitiva até 8 de julho de 2022.

SECÇÕES

ENSAIO: O ensaio é uma secção-chave do projeto da Interact, que visa contribuir para um fortalecimento da presença do pensamento (em particular do pensamento português) nas redes de informação. Os textos para esta secção devem ter entre 4 a 5 páginas (10.000 a 12.500 caracteres com espaços), com uma utilização reduzida ou moderada de notas de rodapé e itálicos. Desaconselham-se também: negritos, cabeçalhos e diferenciação de fontes por tamanhos de letra.

INTERFACES: É objetivo desta secção afrontar duas lacunas importantes da atividade contemporânea da crítica no espaço da cultura portuguesa: a presença muito insuficiente da crítica cultural especializada na Internet, aí se incluindo o comentário e a recensão, e a falta de atenção da crítica a temas e objetos provenientes da cibercultura. Têm também aqui lugar artigos de carácter mais breve e mais experimental. Os textos para esta secção devem, também, ter entre 4 a 5 páginas (10000 a 12500 caracteres), privilegiando-se o uso de elementos multimedia e ligações, e desaconselhando-se o recurso a notas de rodapé, negritos, cabeçalhos, diferenciação de fontes por tamanhos de letra e itálicos.

LABORATÓRIO: Esta secção, concebida como mostra de trabalhos artísticos, é inteiramente livre no que respeita aos meios de expressão a utilizar (escrita, grafismo, vídeo, imagem digital, som, …), aos temas e aos géneros, incentivando-se a experimentação das características próprias das tecnologias digitais. As propostas aqui apresentadas são da inteira responsabilidade dos respetivos autores, embora a sua realização e implementação online possa resultar do trabalho conjunto com a equipa da Interact.

ENTREVISTA: A presença da cultura na Internet ao longo dos últimos anos tem mostrado que a entrevista é um dos géneros mais bem-sucedidos na divulgação e no debate de ideias e na expressão do estilo próprio que faz de alguém um autor. Em outros meios, a entrevista é frequentemente uma paródia de si própria pela escrita, uma exibição menor de uma oralidade de improviso (como na rádio ou na televisão) ou um género adulterado pelo rewriting jornalístico. A natureza dos instrumentos de comunicação próprios do online oferece hoje a possibilidade de praticar a entrevista sob formas diversas e extremamente flexíveis, mesmo à distância, permitindo contribuir para a divulgação, junto de um público mais alargado, de autores de qualidade nas áreas contemporâneas do pensamento, da cultura e das artes.

Notas biográficas:

Luís Lima é doutorado em Filosofia – Estética, pela FCSH / UNL, sob orientação conjunta de José Gil (FCSH) e Antoine Compagnon (Paris 4 Sorbonne), como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também bolseiro da FCT no mestrado em Comunicação, Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias pela mesma universidade. É professor universitário (UAL, IPCA) e tradutor freelancer no campo do pensamento contemporâneo (Bernard Stiegler, Jacques Rancière, Georges Didi-Huberman, Marie-José Mondzain, Gilles Deleuze, etc.). É investigador colaborador no ICNOVA (Cultura, Mediação e Artes) e integrado no CEAA (Arte e Estudos Críticos).

Alexandra Martins é mestre em Estudos Artísticos – Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e doutoranda em Estudos Artísticos – Arte e Mediações na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/ Universidade Nova de Lisboa com um projecto financiado pela FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia sob orientação do Professor José Bragança de Miranda.

2022-06-20T18:12:07+00:00