Revista Interact nº 42 – Chamada para contributos

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Submissão de proposta: 8 de maio, 2026

Submissão da versão definitiva: 8 de junho, 2026 

Equipa editorial: Alice Sanches (ICNOVA), Diogo Ferreira (ICNOVA), Philipp Teuchmann (ICNOVA), Nathalia Silveira Rech (ICNOVA)   

Indústrias Criativas: entre produção e geração

Por muito tempo se acreditou que o campo da criatividade estaria consideravelmente protegido da crescente automação das sociedades. De forma geral, a centralidade da prática, da estética, assim como das ontologias que subjazem à arte, parecia conferir à criatividade uma imunidade necessária para que esta escapasse aos diversos impulsos automatizadores. 

Indústria e cultura: atrever-nos-íamos a dizer que o emparelhamento destes conceitos já não constitui, há muito, uma fonte de embaraço ou de sobressalto. Se atendermos ao que tem sido o rápido crescimento do peso do “sector criativo” nas nossas economias, a produção e distribuição em massa de objectos e experiências culturais afigura-se, cada vez mais, como um bem social. Todavia, um simples exercício genealógico bastaria para recordar que a “indústria da cultura” emerge na primeira metade do século XX como uma noção crítica da aplicação de processos de automação e racionalização ao domínio do estético. Daí que o célebre ensaio de Adorno e Horkheimer (1947) que cunha esse termo mereça hoje ser relido à luz dos últimos desenvolvimentos da chamada IA “generativa”: o que acontece à cultura quando os processos mais íntimos de “geração” do novo parecem já dispensar, ou apenas parasitar, a cognição e a sensibilidade humana?

Pensar actualmente as indústrias culturais e criativas é, pois, reconhecer o papel de vanguarda que as mesmas desempenham na intersecção de três factores relevantes na “criação de valor”, que são também três grandes “caixas negras” da cultura humana: a inteligência, a criatividade e a tecnologia. Se, como afirma Manovich (2017), ainda não podemos falar de uma cultura plenamente “dirigida por IA”, porque restam fases ou dimensões da produção artística por automatizar, certo é que os “criativos” do século XXI são inevitavelmente convocados a tomar uma posição face às potencialidades dos LLMs multimodais — surgindo práticas e éticas de trabalho que vão da adesão entusiástica à recusa total destas tecnologias. Os modelos da IA generativa, assentes na extração e processamento estatístico de dados em larga escala, determinam, portanto, o mais recente estádio de “hiper-industrialização” do sensível (Stiegler, 2004), integrando as economias da “atenção” (Crary, 2013; Citton, 2014), de “vigilância” (Zuboff, 2019) ou de “plataformização” (Srnicek, 2016) que os precedem — e que os preparam.

Certo é que as lógicas industriais do automático e do combinatório há muito acompanham a criatividade como sua sombra. Para além dos imperativos comerciais de Hollywood, a pro-gramática do estético por via do técnico conheceu no século XX várias concretizações, da vídeoarte às intervenções computacionais sobre a imagem, da música estocástica à literatura algoritmizada. Não se esgota, pois, na mais recente revolução da IA o conceito de uma arte maquínica.

Neste contexto, esta edição da revista Interact visa desafiar a opacidade das tecnologias, discursos e práticas mobilizadas na atual economia cultural e explorar criticamente as tendências de transformação das indústrias criativas. Pretende-se focar na industrialização das artes em geral e na IA generativa em particular, atendendo ao modo como esta redefine a agência e o lugar criativo do humano. Uma renovada crítica e análise das indústrias criativas torna-se crucial para caracterizar a condição cultural das sociedades contemporâneas, que se pautam por uma crescente tecnologização das artes e da criatividade. 

Tópicos de interesse da Interact 42:

  • Intermedialidade, pós-medialidade e hibridizações entre setores criativos;
  • Plataformização e relações de propriedade nas artes e cultura contemporâneas;
  • Imediação, remediação e hipermediação da cultura; 
  • Tecnologias e economias da atenção;
  • Aplicação de IA na produção e na analítica da cultura;
  • Lógicas da criação e consumo distribuídos;  
  • Poéticas generativas e combinatórias;
  • O industrial e o artesanal na cultura digital;
  • Produção de conteúdo e expressão cultural;
  • Transformações no mercado de trabalho dos sectores criativos;

Convidamos assim à contribuição para as diferentes secções da revista — Ensaio, Interfaces, Laboratório e Entrevista. 

Cada proposta deve, num primeiro momento, incluir um título, um resumo que versa entre 150 e 450 palavras, uma breve nota biográfica (100 palavras) e a indicação da secção em que se enquadra. Para a secção “Laboratório” deverão ser também enviados um excerto do trabalho e ainda demais materiais que possibilitem a avaliação e contextualização da proposta. 

As submissões devem ser enviadas até 8 de maio de 2026 para o e-mail do número 42:  interact.industriascriativas@gmail.com

Caso sejam aceites para publicação, a sua versão definitiva deverá ser enviada até 8 de junho de 2026.

Sublinha-se que cabe aos editores a decisão de publicação ou rejeição das propostas submetidas.

Abaixo encontram-se descritas as várias secções da revista e as suas especificidades. 

Ensaio:

O ensaio é uma secção-chave do projeto da Interact, já que um dos seus objetivos principais é o de estimular o debate de ideias e dar a conhecer o pensamento de autores contemporâneos nas redes de informação. Os textos devem ter no máximo 16000 caracteres. Não usamos notas de rodapé. Também se desaconselham: bolds, cabeçalhos e o diferenciamento de fontes por tamanhos de letra. O ideal é fazer uso do mais rudimentar editor de texto. Ensaios podem possuir imagens. 

Interfaces:

É objetivo desta secção afrontar duas lacunas importantes da atividade contemporânea da crítica no espaço da cultura portuguesa: a presença muito insuficiente da crítica cultural especializada na Internet. A crítica qualificada das artes e da cultura continua a estar, em grande medida,  ausente do ciberespaço e extremamente fixada nos jornais e nas revistas da especialidade, continuando, mesmo depois de longos anos de transição digital, desconfiada de qualquer «cultura tecnológica». Esta secção dá atenção aos objetos culturais, às suas produções e ligações. Os textos não devem exceder 12000 caracteres, privilegiando-se o uso de elementos multimédia e hiperligações. Acolhem-se também o comentário e a recensão, assim como contributos que fazem coexistir a imagem e o texto na análise de objetos culturais, promovendo o diálogo entre o atual (agência desses objetos culturais) e o virtual (a Internet como lugar para a constituição de um espaço crítico). 

Laboratório:

Esta secção, concebida como mostra de trabalhos artísticos, é inteiramente livre no que respeita aos meios de expressão a utilizar (escrita, grafismo, vídeo, imagem digital, som, ensaio visual), aos temas e aos géneros, incentivando-se a experimentação das características próprias das tecnologias digitais. Diferindo, no entanto, da mostra de propostas documentais sobre os potenciais trabalhos. As propostas aqui apresentadas são da inteira responsabilidade dos respetivos autores, embora a sua implementação online possa resultar do trabalho conjunto com a equipa da Interact. O trabalho publicado poderá ser composto por um texto de apresentação que não deve exceder 8000 caracteres. Os trabalhos em vídeo e outros media temporais não devem ultrapassar 10 minutos, aproximadamente. 

Entrevista:

A natureza dos instrumentos de comunicação próprios do online oferece hoje a possibilidade de se realizar a entrevista sob formas diversas e extremamente flexíveis, mesmo à distância, permitindo contribuir para a divulgação, junto de um público mais alargado, de autores de qualidade nas áreas contemporâneas do pensamento, da cultura e da arte. Preferencialmente, e embora possam ser aceites outros formatos, a entrevista deverá ser gravada em vídeo, que será carregado para o canal do YouTube da revista. A edição será cuidada, acompanhada pela equipa editorial, e explicita as questões que abordam as autorias entrevistadas. No formato de vídeo não deverá ultrapassar os 25 minutos. A entrevista no formato textual (transcrita) poderá possuir imagens e hiperligações contextuais e não exceder os 16000 caracteres. Consideram-se autores os entrevistadores; a anteceder a entrevista propriamente dita deverá estar uma nota biográfica do(s) entrevistado(s), assim como uma apresentação do contexto da realização da entrevista. 

Equipa editorial:

Alice Sanches é doutoranda em Ciências da Comunicação, com especialização em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, na NOVA FCSH e é membro do projeto IN&OUT of the BOX. A sua investigação insere-se no campo da tecnoestética e da estética dos media, com particular foco nas relações entre epistemologia, práticas técnicas e cultura, bem como nas utilizações disruptivas da tecnologia.

Diogo Ferreira é doutorando em Ciências da Comunicação, com especialização em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, na NOVA FCSH. Nesta mesma faculdade, foi professor assistente convidado das unidades curriculares de Teoria da Comunicação e de Economia Cultural e Indústrias Criativas, tendo também coeditado a Revista de Comunicação e Linguagens #56 (2022). É ainda cogestor do Projecto Exploratório IN&OUT of the BOX: Exploring Emerging Technologies and Future Skills (FCT – ICNOVA), que pensa o impacto da transição digital e da aplicação de inteligência artificial generativa no sector das indústrias criativas.

Philipp Teuchmann é doutorando em Ciências da Comunicação, com especialização em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, na NOVA FCSH. Concluiu em 2021 o mestrado na mesma área e instituição com uma dissertação intitulada «Da Operatividade Gráfica: o Diagramático em Três Exemplos da Arte Contemporânea».  Integrou vários projetos – African-European Narratives, Photo-Impulse e  IN&OUT of the BOX – e escreveu artigos para publicações académicas nacionais e internacionais. Foi membro da equipa organizadora da conferência internacional Arts and Humanities in Digital Transition (2023) e coeditor da Revista de Comunicação e Linguagens #60-61 (2024). As suas áreas de interesse situam-se na teoria dos media e das técnicas culturais, semiótica e indústrias culturais contemporâneas. 

Nathalia Silveira Rech é doutoranda em Ciências da Comunicação, com especialização em Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias, na NOVA FCSH, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Maria Teresa Cruz. Está associada ao grupo Cultura, Mediação e Artes do ICNOVA. É graduada em Comunicação Social pela PUCRS (2014) e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2018), onde integrou o Grupo de Pesquisa Extremidades: redes audiovisuais, cinema, performance e arte contemporânea.

Cartaz da chamada para a Revista Interact 42, sobre Indústrias Criativas e IA.

© imagem e cartaz por Alice Sanches

Recorte do cartaz da Counter-Image 2026.

IV Conferência Internacional Counter-Image

Como falar com(o) a terra? Conhecimentos situados, métodos para desnomear e visões do umbral “Eu não podia tagarelar como costumava fazer, tomando tudo por garantido.