Submissão de proposta: 07/12/2026
Submissão da versão definitiva: 18/01/2027
Equipa editorial: Ana Carolina Fiuza (ICNOVA); José Pedro Baptista (ICNOVA); Nico Espinoza (Universidade Lusófona – CICANT)
Infraestruturas invisíveis: a opacidade do inorgânico organizado
Redes de comunicação, satélites, cabos submarinos, sensores distribuídos, centros de dados, sistemas logísticos e plataformas digitais configuram a paisagem técnica contemporânea à escala planetária. Os ecrãs constituem apenas a superfície visível desse domínio. Aquilo que designamos como “imaterial” – a nuvem, o fluxo de dados, a instantaneidade das redes e a própria informação – depende de configurações materiais complexas, raramente acessíveis à percepção direta. Antes de qualquer mensagem trocada, existe uma cadeia operatória (Leroi-Gourhan) que começa na extração: minério retirado do subsolo, energia consumida, calor dissipado, água utilizada no arrefecimento de servidores. O lítio de uma bateria, o cobre de um cabo ou o silício de um processador percorrem geografias de mineração, refinação e transubstanciação que o objeto final apaga quase por completo. A opacidade desta tecnicidade infraestrutural, antes de ser informacional, é extrativa, energética e logística.
A esse domínio – nem matéria inerte, nem organismo vivo – Bernard Stiegler, na esteira de Leroi-Gourhan, chama inorgânico organizado: ferramentas, arquivos, máquinas e redes que acumulam e transmitem soluções técnicas ao longo de gerações. Essas configurações técnicas são também o acúmulo de decisões sucessivas – como fazer um ecrã, como guardar energia, como ligar a uma rede – que permanecem no objeto, mesmo que quem as tenha concebido já não esteja presente. O inorgânico organizado guarda e transmite essas soluções como uma espécie de memória; uma memória que, ao contrário da biológica, exige sempre um suporte técnico exteriorizado – a ocultação é apenas um efeito possível dessa dinâmica, nunca a sua essência.
Contudo, estas configurações técnicas operam com autonomia crescente, limitando e dispensando cada vez mais a atenção e o gesto humanos. É um problema que atravessa a leitura de Friedrich Kittler sobre os sistemas técnicos de registro, capazes de capturar o real sem a mediação do sujeito – sem o “filtro do simbólico”. Algoritmos de recomendação condicionam o que vemos; sistemas de vigilância registram padrões de movimento que nenhum olhar humano acompanha; modelos generativos produzem textos e imagens a partir de correlações estatísticas estranhas à percepção sensível. Interessa, portanto, tanto aquilo que as redes ocultam quanto as condições de experiência que elas produzem.
Esse problema assume uma escala cósmica. Walter Benjamin, ao pensar a experiência coletiva sob a figura do planetário, contrapõe a antiga relação com o cosmos – vivida em “embriaguez coletiva” – à relação ótica e distanciada instaurada pela astronomia moderna. A técnica medeia a relação entre a humanidade e aquilo que a excede: o planeta, o cosmos, a escala do impensável. As infraestruturas contemporâneas atualizam essa relação: dos veios minerais e das camadas geológicas às redes que atravessam oceanos e territórios. Estes constituem o novo corpo técnico através do qual se organiza a experiência na atualidade – e são, ao mesmo tempo, um novo cosmos com o qual a humanidade se confronta.
O eixo Infraestruturas Invisíveis convoca, assim, contributos teóricos e artísticos que interroguem e tornem sensível este domínio: a sua materialidade oculta, a autonomia crescente e os modos como organiza o tempo, o espaço, a memória e a percepção. Procuram-se análises dos circuitos econômicos e políticos e das geografias materiais das redes, trabalhos que explorem as suas dimensões sensíveis, sonoras, visuais e espaciais, bem como cartografias e ficções capazes de dar forma àquilo que estrutura, sem necessariamente se deixar ver, a experiência contemporânea do mundo.
Possíveis tópicos de interesse da Revista Interact 43:
- Cadeias operatórias: extração, energia e trabalho (invisível);
- Materialidades e “imaterialidades”: informação, dados, redes e infraestruturas digitais;
- Memória técnica e exteriorização da memória em arquivos e dispositivos de registro;
- Armazenamento, centros de dados e inteligências planetárias;
- Conservação, apagamento e esquecimento nos sistemas técnicos;
- Vigilância, algoritmos e poder;
- Autonomia e indeterminação dos sistemas técnicos e das suas operações;
- Estéticas e cartografias do imperceptível;
- Práticas criativas, desenho especulativo e apropriações artísticas do inorgânico organizado;
- Ficções infraestruturais da técnica e imaginários pós-extrativistas.
Convidamos, assim, à apresentação de propostas para as diferentes secções da revista – Ensaio, Interfaces, Laboratório e Entrevista.
Cada proposta deverá, num primeiro momento, incluir um título, um resumo entre 150 e 450 palavras, uma breve nota biográfica (100 palavras) e a indicação da secção em que se enquadra. Para a secção “Laboratório”, deverão ser igualmente enviados um excerto do trabalho e outros materiais documentais que permitam a avaliação e a contextualização da proposta.
As submissões devem ser enviadas até 07/12/2026 para o e-mail: interact.infra.invisiveis@gmail.com
Caso sejam aceites nesta primeira fase, a versão definitiva deverá ser enviada até 18/01/2027
Sublinha-se que cabe à equipa editorial a decisão de publicação ou rejeição das propostas e dos artigos submetidos.
Aqui encontram-se descritas as várias secções da revista e as suas especificidades a consultar: https://revistainteract.pt/projeto/
Equipa editorial
Ana Carolina Fiuza (ICNOVA)
Investigadora, licenciada em História pela PUC-Rio de Janeiro, Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa (NOVA-FCSH), doutoranda em Ciências da Comunicação (NOVA-FCSH). Seu projeto de investigação, sob a orientação de José Bragança de Miranda e com bolsa de investigação da FCT, busca traçar uma genealogia da tecnicidade e dos corpos artificiais para problematizar as mudanças tecnocientíficas na atualidade, bem como as noções de corporeidade que delas decorrem.
José Pedro Baptista (ICNOVA)
Investigador e professor de Português dos ensinos básico e secundário, com formação interdisciplinar em Ciências da Comunicação, Cultura Contemporânea e Artes Visuais. Doutorado pela Universidade Nova de Lisboa (NOVA-FCSH), com bolsa de investigação da FCT, dedicou a sua investigação ao obsceno enquanto operador discursivo e dispositivo cultural.
Nico Espinoza (Universidade Lusófona – CICANT)
Artista-investigador, mestre em Arte Sonora e Estudos Sonoros pela Universidade das Artes de Berlim (UdK Berlin) e doutorando em Arte dos Media e Comunicação na Universidade Lusófona, integrado no CICANT, com bolsa de investigação FilmEU-FCT. Investiga a articulação de imaginários pós-extrativistas do lítio através de práticas artísticas experimentais.



